História do Jogo do Bicho

Conheça curiosidades sobre a criação do jogo do bicho, os textos foram compilados da internet e arquivos dos jornais. As notícias dos jornais da época são o testemunho histórico da criação desta tradição que é parte do nosso folclore. Os textos foram compilados na linguagem da época.

“A empresa do Jardim Zoológico realizou ontem um magnífico passeio campestre ao seu importante estabelecimento, situado no pitoresco bairro de Vila Isabel.

 

Em bondes especiais dirigiram-se os convidados e representantes da imprensa àquele local e depois de visitarem o hotel, que se acha nas melhores condições, os jardins, as gaiolas em que se acham os animais e aves, tomaram parte em um lauto jantar, em mesa de mais de 60 talheres, presidida pelo digno diretor daquela empresa, o sr. barão de Drummond.
O 1o brinde foi levantado pelo sr. Sergio Ferreira ao sr. barão de Drummond, que em seguida com toda a gentileza brindou à imprensa, sendo correspondido pelo nosso representante. Trocaram-se ainda outros brindes, sendo o último ao sr. vice presidente da República.
Como meio de estabelecer a concorrência pública, tornando freqüentado e conhecido aquele estabelecimento que faz honra ao seu fundador, a empresa organizou um prêmio diário que consiste em tirar à sorte dentre 25 animais do Jardim Zoológico o nome de um, que será encerrado em uma caixa de madeira às 7 horas da manhã e aberto às 5 horas da tarde, para ser exposto ao público. Cada portador de entrada com bilhete que tiver o animal figurado tem o prêmio de 20$. Realizou-se ontem o 1o sorteio, recaíndo o prêmio no Avestruz, que deu uma recheiada poule de 460$000.
A empresa tem em construção um grande salão especial para concertos, bailes públicos, e vai estabelecer no jardim jogos infantis e outros diversos para o público.
Às 9 horas voltaram os convidados, pessoas de alta distinção, penhorados todos à gentileza do sr. barão de Drummond e seus dignos auxiliares. Foi uma festa esplêndida.”
Jornal do Brasil, 4 de julho de 1892
 

“ Jardim Zoológico - A empresa deste importante estabelecimento de criação do benemérito barão de Drummond vai hoje inaugurar diferentes divertimentos ao público fluminense, que alí terá diariamente um passatempo. O sr. M.I. Zevada, é o gerente da empresa e conhecedor de vários estabelecimentos europeus e americanos idênticos ao Jardim Zoológico, dá esperanças de engrandecer aquela instituição de mérito nacional. Há um jantar de instalação, cujo convite muito agradecemos.”
O Tempo, 3 de julho de 1892


“A empresa Jardim Zoológico deu domingo último um grande banquete no magnífico restaurant que existe no Jardim. Para esse banquete tinham sido convidados a imprensa e várias pessoas da nossa melhor sociedade. Correu animadíssima a festa, no meio da maior cordialidade e da maior gentileza por parte dos diretores da empresa. Durante todo o tempo em que estiveram presentes os convidados tocou uma excelente banda de música as melhores peças de seu repertório.
A empresa está atualmente organisada sob grandes moldes, procurando o mais possível distrair o público por todos os meios do seu alcance, organizando concertos, bailes públicos, circos de cavalinhos, espetáculos diversos, bilhares, jogos carteados, jogo de bola e outros modos de diversão.
Além disso, a empresa resolveu estabelecer um prêmio de 20$ por meio de um sorteio original. Cada pessoa ao entrar no jardim receberá por 1$, um bilhete com a indicação de um animal dos 25 que existem no jardim. Em um poste de 5 metros de altura, numa caixa fechada, será colocado um quadro representando um dos animais e quem tiver no bilhete receberá o prêmio. A empresa deposita como garantia de pagamento dos prêmios 10$000 em um banco. O serviço de bondes vai ser aumentado proporcionando assim maior comodidade ao público.
“O Tempo, 6 de julho de 1892
 

“Jardim Zoológico - Grande festa hoje no Jardim Zoológico. Inaugura-se uma empresa de divertimentos públicos, com rifas em que se pode tirar até 40:000$000. Uma fortuna.”
Diário do Commércio, 3 de julho de 1892.
“Realizou-se ontem, como tinhamos anunciado, a inauguração da nova empresa do Jardim Zoológico.
Às 3 horas das tarde partiram do largo do Rocio em direção a Vila Isabel, dois bonds especiais dessa companhia, levando os convidados daquele empresa, sendo precedidos de uma banda de música. Chegados ali foram os convidados recebidos pela administração do Jardim, que gentilmente acompanhou-os na visita geral.
Às 5 horas desceu a caixa que continha a figura do animal que dominava o dia, de acordo com o programa. O avestruz foi o animal vencedor e que deu aos donos dos bilhetes respectivos os 20$ de prêmio.
Após a vitória do avestruz a vitória do estômago. Deu-se começo pois a um lauto e profuso banquete de 100 talheres, havendo por esta ocasião brindes de saudações recíprocas.
À festa compareceram muitas distintas senhoras, representantes da imprensa e outros muitos convidados.”
Diário do Commércio, 4 de julho de 1892
 

“A empresa do Jardim Zoológico inaugurando hoje um restaurant no mesmo jardim, destinado a famílias, e onde estabeleceu graciosos jogos para crianças e distrações próprias a um magnífico logradouro público, oferece hoje aos seus convidados um jantar regado a fino champagne Clicot. A inauguração terá lugar às 5 horas da tarde, saíndo um bonde especial para os convidados, às 3 horas, da praça da Constituição.”
Diário de Notícias, 3 de julho de 1892
 

“A empresa do Jardim Zoológico ofereceu ontem um jantar a vários convidados, que em um bonde especial seguiram, às 3 horas da tarde, para o soberbo restaurante situado naquele jardim, em Vila Isabel. Para desejar que faça carreira este novo estabelecimento, basta desejar-lhe mais orientada administração do que teve o seu antecessor.”
O Paiz, 4 de julho de 1892
 

“A empresa do Jardim Zoológico ofereceu domingo, no restaurante alí estabelecido, um lauto jantar a diversos cavalheiros.”
Gazeta de Notícias, 5 de julho de 1892
 

“Há hoje festa no Jardim Zoológico, inaugurando-se ali novos divertimentos.”
Jornal do Commércio, 3 de julho de 1892
“Foram inaugurados ante-ontem diversos divertimentos no Jardim Zoológico, entre os quais o do sorteio dos animais, que tem por fim animar a concorrência àquele estabelecimento. Esse sorteio consiste no seguinte: d’entre 25 animais escolhidos pela Empresa é tirado um diariamente e metido em uma caixa quando começa a venda de entradas. Às cinco horas da tarde, a um sinal dado, abre-se a caixa e a pessoa que tem a entrada com o nome e o desenho do animal, ganha-o como prêmio. No próximo domingo o público lá encontrará diversos divertimentos e jogos infantis. Está em construção uma grande sala destinada a bailes populares.”
Jornal do Commércio, 5 de julho de 1892
 

“Venceu ontem o gato. A empresa pagou prêmios na importância de 1:420$000. O Jardim foi visitado por 1350 pessoas.
O Sr. ministro da Guerra visitou ontem o Jardim Zoológico em companhia do barão de Drummond. S. Ex. foi testemunha da forma dos prêmios estabelecidos pela empresa, afim de animar a concorrência daquele estabelecimento. Muito agradou a S. Ex. a ordem e asseio daquela vivenda de animaes.”
Diário do Commércio, 11 de julho de 1892
 

“O sr. ministro da Guerra visitou ontem o Jardim Zoológico, percorrendo todas as suas dependências, acompanhado pelo sr. barão de Drummond.”
Jornal do Brasil, 11 de julho de 1892
“O marechal Floriano Peixoto visitará brevemente o Jardim Zoológico.”
Gazeta da Tarde, 8 de julho de 1892
 

“Para os azaristas - No Jardim Zoológico venceu ontem o Avestruz. A empresa pagou de prêmios 680$.”
O Tempo, 10 de julho de 1892
 

“Jardim Zoológico - Venceu ontem o gato. A empresa pagou de prêmios 1:100$.”
O Tempo, 14 de julho de 1892
 

“Jardim Zoológico - Venceu ontem o cavalo. Pagou-se de prêmios 740$. Amanhã (domingo) das 3 horas da tarde em diante baverá bondes diretos. Divertimentos diversos.”
O Tempo, 16 de julho de 1892
 

“Jardim Zoológico - Venceu ontem o cachorro. Pagou-se de prêmio 2:08$.”
O Tempo, 17 de julho de 1892
 

“No Jardim Zoológico venceu ontem o pavão. Pagou-se prêmio de 1:140$.”
O Tempo, 19 de julho de 1892
 

“Jardim Zoológico - Venceu ontem o coelho. Pagou a empresa prêmios na importância de 640$000.”
Gazeta de Notícias, 6 de julho de 1892
 

ANÚNCIO:
Jardim Zoológico - Prêmios Diários Sobre Animais de 20$ a 40:000$ - Vendas das Entradas na Rua do Ouvidor No 129 e no Jardim.
O Tempo, 12 de julho de 1892
 

“Ao Dr. 2o delegado dirigiu ontem o Dr. Chefe de Polícia o seguinte ofício:
No empenho de procurar atrair concorrência de visitantes ao Jardim Zoológico, solicitou o seu diretor para certo recreio público licença, que lhe foi concedida pela polícia, em vista da feição disfarçadamente inocente que da símples primeira descrição do divertimento parecia se deduzir. Entretanto, posta em prática essa diversão, se verifica que tem ela o alcance de verdadeiro jogo, manifestamente proibido. Os bilhetes expostos à venda contém a esperança puramente aleatória de um prêmio em dinheiro, e o portador do bilhete somente ganha o prêmio, se tem a felicidade de acertar com o nome a espécie do animal que está erguido no alto de um mastro.
Esta diversão, prejudicial aos interesses dos incautos, que com a esperança enganadora de um incerto lucro se deixam ingenuamente seduzir, é precisamente um verdadeiro jogo de azar, porque a perda e o ganho dependem exclusivamente do acaso e da sorte.
Como semelhante divertimento não pode por mais tempo ser tolerado, e conquanto maior fundamento quanto é certo que muitas queixas me têm sido dirigidas pelas pessoas lesadas, assim intimarei ao diretor do Jardim Zoológico para que suspenda imediatamente a continuação do aludido jogo, sob pena de ser processado na coformidade dos arts. 369 e 370 do código penal.”
O Tempo, 23 de julho de 1892
 

“Quem nasceu para dez réis nunca chega a vintém, - é verdade que nenhum caipora é capaz de contestar.
Nestes dias de prosperidade, de progresso amamentado pelo papel moeda que às enxurradas de magníficos negócios engrandeceram o gênio das finanças, é sabido que a melhor e mais segura indústria é a do jogo e loterias sob todas as formas. Já tinhamos cassinos, clubes, cercles e outros grandes estabelecimentos industriais que prosperam a bragas molhadas sem auxílio nem nada. Temos agora a loteria zoológica, o víspora dos bichos, a rodas das alimarias.
Atirei ao trabalho honrado, isto é, ao novo jogo que é o trabalho da época. Aquele provérbio dos dez réis que não passa a vintém, haja o câmbio que houver, perseguiu-me até nesta invenção biolotérica. Os bichos fogem do caipora como o demo da caldeirinha. Caso singular! Perco sempre na mesma.
Outro dia joguei no perú, e saiu o pavão, galináceo como aquele e tão vaidoso como o seu parente, mas com a diferença, que um me daria vinte mil réis e o outro fez-me perder mil réis. Comprei uma entrada com o “gato” e perdi nas garras do “tigre”, ambos felinos, e diversos no estado de domesticidade e no estado selvagem.
Para maior dos pecados, quando contava desforrar-me com o elefante, cuja corpulência e força devia arrazar tudo, caiu da caixinha a estampa corcunda do camelo. Tanto um como o outro são pachydermes, mas o camelo deu os vinte mil réis e o elefante nem um nickel.
Sendo a loteria cientificamente zoológica, porque não se aplicar o sensato e justo sistema esportivo de correr as poules por coudelarias? Neste caso os lotes seriam por famílias, gêneros e espécies. Quem jogasse nos felinos poderia ganhar com o gato ou com o tigre entre os galináceos, o perú seria tão bom segundo como o pavão foi primeiro. Entre os roedores poderia eu achar dente de coelho ou apanhar ratazanas nedias e roliças com o seu recheio de notas de mil réis e farofa de vinte mil ditos. Quisesse eu jogar na alta e molharar-me-ia com os trepadores e se o tucano caísse por qualquer descuido, o papagaio de vistosas penas me levaria às alturas das finanças. E os repteis não poderiam dar a fortuna do prêmio gordo, tamanha é a família e tão rasteiro o seu gêenero? A rola biolotérica não está bem organizada; precisa de reforma, pelo menos enquanto eu perder nesse pacão.
 
Hoje reza-se por outra cartilha; o jogo, a sorte, o ágio e a advocacia administrativa parlamentar que em um abrir e fechar de mãos levam um homem a habitar palácios principescos em Lisboa ou pelintrar nos boulevards de Paris. O gênio que criou tudo isso bem sabe o que fez.”
Maximo Job , em O Tempo, 23 de julho de 1892

  O que não posso contestar é que o sistema, como se dizia no tempo de Law, é genuinamente popular. É vir à rua do Ouvidor às 5 horas da tarde, quando a caixa sobe para os que tem de ir ao cofre, para se reconhecer que que o inventor da vispora é homem de gênio. Na primeira revolução em que eu tenha influência fal-o-hei ministro da Fazenda. Então é que o Brasil verá o que são bancos geniais de emissão e encilhamento de corar de vergonha todas as ruas Quincampoix e Alfândega passados e por vir.
Ex digito, gigas. Por aqueles papéis de bichos pintados, avalia-se o gênio de um povo e a moralidade de um regime político. Ganhar pelo trabalho é uma velharia e custa uma vida inteira.


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